segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Choque de gerações

Após a Segunda Guerra Mundial o conceito “geração” passou a ser utilizado para caracterizar e diferenciar o grupo de pessoas que nasceu numa determinada época quando ocorreram fatos que marcaram suas vidas. O conceito surgiu da seguinte forma: “geração pós-guerra”.

Atualmente, esta conceituação atende com bastante eficácia à mídia. Do mesmo modo que os meios de comunicação reforçam a caracterização da geração, eles inventam qualidades e vontades para atenderem aos fabricantes dos produtos que serão consumidos pela referida geração. Claro que há pesquisas, apesar de não muito detalhadas e muitas vezes superficialmente citadas, como por exemplo: “pesquisadores americanos constataram que não são apenas os jovens entre 15 e 25 anos que consomem hambúrguer, ele é consumido, também, na mesma quantidade pelas pessoas que tem entre 30 e 40 anos, por isso os fabricantes de hambúrguer estão investindo bastante para entender melhor o perfil das pessoas desta faixa etária para atendê-los melhor. ”Veja, esta pesquisa foi citada numa reportagem sobre alimentação numa revista de entretenimento sem citar a fonte da pesquisa, portanto, sem cunho científico. Se a pesquisa é ou não verdadeira não vem ao caso, o que importa é que ela é, de fato, uma propaganda velada, ela informa e ao mesmo tempo procura induzir o consumo de hambúrguer incluindo uma geração inteira de consumidores. É como se dissessem: homens e mulheres entre 30 e 40 anos estão, a partir de agora, autorizados a comer hambúrguer, ou, a “geração dos anos 80” come hambúrguer, você já comeu o seu hoje?

A faixa etária sendo dividida de 10 em 10 anos facilita a vida dos marqueteiros: é bem pedagógico e fácil das pessoas se localizarem. Diz-se, por exemplo: “o rock dos anos 80 era diferente do rock que se fez na década dos anos 90, e a roupa que se usava era assim e assado”, ou, “a geração dos anos 70 era hippie, tinha um som mais psicodélico, usava-se uma roupa mais leve”. Hoje, fala-se na geração internet: todos baixam tudo e desbloqueiam quebrando a senha dos programas, dos jogos e dos filmes, e as gerações anteriores dizem que fazer isso é ilícito.

A tentativa de enquadrar em gerações pode causar algum estranhamento nas pessoas que viveram tal época em tal idade, pois, as coloca como ultrapassadas, já estariam fora de moda. É um desprestígio a uma ou outra geração não ter vivido nesta ou naquela outra geração. Quem viveu, por exemplo, o período da ditadura militar, década de 70, hoje diz que nesta época havia engajamento político e que os jovens de hoje estão perdidos, pois, não gostam de política.

Esta caracterização, “geração pós-guerra”, teve seus motivos na Europa e nos Estados Unidos. Já o Brasil não teve tantos motivos que motivassem alguém a chamar seus filhos de geração pós-guerra. E quem é a “geração coca-cola”? Seríamos todos nós que bebemos coca-cola? Então, são várias gerações que surgiram após a invenção da coca-cola.

Gerações e gerações são modos que o senso comum brinca de achar que entende o que está se passando. A tradição de uma sociedade está muita mais vinculada a sua cultura, a sua língua e aos modos como lida com o mundo do que a uma simples conceituação pretensamente explicadora e reguladora como “geração”. As mudanças ocorrem, mas, não na velocidade e decenalmente como o conceito “geração” pretende indicar. E, algumas vezes, uma invenção ou descoberta pode levar a uma mudança em menos tempo que dez anos. E mesmo assim não indica que houve um avanço social ou cultural. Pode ter havido até um retrocesso. Quem se deleita com o conceito “geração” é o mercado de capitais que manipula facilmente as faixas etárias através de suas peças de marketing para obter os lucros que tanto necessita. Marketing este planejado ano a ano em função de estatísticas e tecnologias da informação que traduzem os perfis e hábitos dos consumidores.

Para clarear um pouco mais esta idéia, veja o mundo das cores aplicado à moda: o vermelho é para os jovens, pois eles estão no viço da idade, e esta cor traduz bem os seus incontroláveis impulsos. Já para uma pessoa de 50 anos cai bem um creme, um cinza, cores mais sóbrias. Ironizando: talvez porque nesta idade a pessoa já esteja com a cor da pele um pouco cinza ou um tanto quanto desbotada ou manchada e seus impulsos sejam cinza. E que cor cairia bem para quem tem 30 ou 40 anos?

Flávio Netto Fonseca

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