"Jonas vive numa comunidade que fala uma linguagem exclusivamente pública, baseada em eventos públicos. Antes do nascimento de Jonas, a linguagem dessa comunidade passou por pelo menos três estágios. No primeiro deles, as pessoas se comunicavam fazendo referência exclusivamente a objetos espaço-temporais públicos. Não havia verbos psicológicos, como pensar, querer, sentir, significar etc. Se alguém estivesse com medo - e isso poderia ser publicamente comprovado colocando-se a mão do ouvinte no peito do falante. No segundo estágio, a linguagem foi enriquecida com a introdução de termos semânticos como quer dizer, significa, verdadeiro, falso. A partir de então, as pessoas podiam dizer que água significa líquido inodoro e incolor e que a proposição chove, enunciada quando está chovendo, é verdadeira. No terceiro estágio, a linguagem foi enriquecida de modo a permitir a distinção entre expressões teóricas e observacionais. Até aqui, as pessoas se comunicavam por meio de descrições diretas do comportamento observável e para isso utilizavam termos observacionais. Como exemplo desse tipo de termo, temos a palavra Sol, que é usada para descrever os comportamentos diretamente observáveis do astro designado por esse nome. No novo estágio, porém, as pessoas tornaram-se capazes de introduzir expressões novas, mais sofisticadas, que, embora não correspondam diretamente a descrições de comportamento observável, podem ser inferidas a partir dessas mesmas descrições. Com isso, elas criaram os termos teóricos. Essa distinção é metodológica e não ontológica, pois tem a ver apenas com o tipo de acesso linguístico que temos aos objetos descritos por essas expressões. Como exemplo de termo teórico, podemos citar a expressão centro de gravidade do Sistema Solar: não podemos observá-lo diretamente, pois ele deve estar próximo ao centro de gravidade do Sol e não temos como chegar lá; mesmo assim, os comportamentos do Sol e dos planetas do Sistema Solar nos permitem inferir a existência desse centro de gravidade." Paulo Margutti, Revista Mente. Cérebro e Filosofia 9
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