segunda-feira, 19 de maio de 2008

Do Contrato Social - Rousseau


1. Contrato Social - Livro Primeiro - Capítulos I e II

Análise: A reflexão racional filosófica surge quando há um problema de âmbito genérico que algum filósofo sente necessidade de resolver. De alguma forma, este filósofo identificou o problema, aprofundou sua reflexão e foi motivado a resolvê-lo. Não há como saber precisamente, ou às vezes nunca se saberá o que o deixou curioso e motivado que o fez se mover em relação ao problema, a menos que, o filósofo anuncie porque ficou motivado. O filósofo Immanuel Kant, por exemplo, disse que foi despertado de seu sono dogmático pelo filósofo cético e empirista David Hume e por isso foi motivado a escrever o livro “Crítica da Razão Pura”. Na maioria das vezes, vários filósofos pensam dentro de uma linha filosófica e debatem sobre os conflitos que ela apresenta e ficam motivados a resolver estes conflitos. Rousseau foi influenciado por Maquiavel, Montesquieu, Diderot, Hobbes e Locke. É assim que se dá a História da Filosofia: há um debate permanente entre os filósofos de sua época e também de épocas anteriores. O cuidado deve ser redobrado quando um filósofo contemporâneo debate com filósofos da Modernidade ou da Antigüidade, pois, as visões de mundo são diferentes.

Introdução do Livro Primeiro: Rousseau anuncia o problema que irá desenvolver nos capítulos deste livro. Ele procura um critério legítimo e seguro que possa permitir a conjugação adeqüada no mundo público, que ele chama de "ordem civil", entre os interesses dos homens e a lei. Ele faz isso na qualidade de cidadão, não de príncipe e nem de legislador. Ao dizer que entra no assunto sem demonstrar, ele está anunciando que dá sua sugestão não por mero delírio, ou por um desejo, ou por algum interesse pessoal, ou por contestação simples e inconseqüente. Ele quer dizer que irá demonstrar no desenvolvimento do Livro.
É importante observar que Rousseau toma um problema genérico que acredita ser de interesse de todos os homens que é o trato da coisa pública; analisa, utilizando a crítica; e diz que irá argumentar racionalmente pois irá demonstrar o que anunciou. Este modo com o qual ele se expressou implica num resultado objetivo e não subjetivo, ou seja, não é uma mera opinião, é uma opinião que ele espera ser tomada como verdadeira por todos os homens. Pelo tema ser geral, por ser de interesse dos cidadãos, por usar de argumentos demonstrativos e por ser objetivo, Rousseau, neste livro, faz Filosofia Política.

Capítulo I Rousseau mostra qual é o problema efetivo: o homem nasce livre e por toda a parte está a ferros (acorrentado). Qual é a razão disso estar acontecendo? Se a ordem social, como ele diz, é um direito sagrado, ela não deve ter sido legitimada pela força, pois, o homem em seu estado de natureza é livre, diante das correntes ele se rebelaria. E por que ele não se rebela? Porque a legitimação foi feita por convenção e não pela força.

Capítulo II Ao fazer a analogia de um povo com a família, Rousseau mostra que o pai cuida dos filhos por amor, mas, o chefe que está numa posição similar, não cuida de seu povo, pois, a eles não tem amor, ele tem é prazer de mandar. Citanto os argumentos de Hugo Grotius, jurista holandês que viveu de 1583 a 1645, e que justificou o poder dos tiranos pelo fato de haver escravos, Rousseau conclui que Grotius pensa assim porque ele toma o gênero humano pertencendo a cem homens, logo, estes homens seriam superiores aos demais. O que justificaria esta superioridade é o fato deles serem deuses ou então o fato dos demais homens serem animais. Quanto ao resultado desta relação, Rousseau concorda com todos os que pensaram assim, Aristóteles, Calígula, Grotius e Hobbes: a escravidão existe, e é fato, não há como negá-la, mas, foi a força que produziu a escravidão e não uma condição natural. Mas, Rousseau discorda de todos eles, porque eles tomaram o efeito pela causa.

[Qual é o raciocínio? Como não era possível saber se houve ou não um primeiro escravo, Aristóteles, para justificar a exclusiva cidadania dos homens adultos, ricos e livres, assumiu que a escravidão sempre existiu, e para justificar a escravidão disse que o escravo é escravo por natureza, ou seja, ele já nasce escravo. Este argumento de Aristóteles se estendeu também para as mulheres. Veja a citação: "Aristóteles afirma em 1235 b 10 que existem homens que são escravos por natureza, ou seja, por exigência e vocação da sua própria alma. O escravo não tem capacidade de decisão nem (ao contrário das mulheres) de deliberação, pelo que não consegue agir senão sob a direcção de outro homem. É então do interesse do próprio escravo ser escravo. Contudo, como o próprio Aristóteles reconhece, permanece o problema de, por vezes, a natureza enganar-se. Há almas de escravos em corpos de homens livres e vice-versa." (Ricardo Justino, Universidade de Coimbra)]

Para ver os vídeos no Youtube

domingo, 22 de abril de 2007

Ulisses - o homem que pensa

O filme Odisséia é a narrativa da viagem de Ulisses, herói grego que é protegido pela deusa Palas Atena. Por ter declarado que não precisava dos deuses (por ter vencido a guerra de Tróia devido ao Cavalo de Tróia, sua invenção), Poseidon, deus do mar, o condenou a sofrer no mar para sempre, não permitindo que voltasse a Ítaca, seu reino. Após uma reunião no Olimpo, os deuses decidiram por sua volta com a anuência de Zeus (o deus dos deuses). Os deuses admiravam Ulisses por ser o "único homem que pensa". Com a sua astúcia, Ulisses conseguiu vencer todos os obstáculos (com a ajuda dos deuses, menos de Poseidon) e voltou a ìtaca para retomar seu reino e prosseguir sua vida junto de Penélope e Telêmaco (seu filho). Antes de chegar a Ítaca, Ulisses compreendeu que ele não era um deus e que não passava nem mais e nem menos do que um homem. Leia um pouco mais sobre esta mitologia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ulisses

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Filosofia: o mundo das interrogações


Na próxima semana a aula será um debate sobre 'atitude filosófica', 'curiosidade' 'atenção' e as principais perguntas que afligem a todos que estarão no debate.

O recurso estético será o video clip da banda 'The Black Eyed Peas' cantando Where is the love ?
Para ver o clip:
http://www.youtube.com/watch?v=ojpbOJjrGBQ

Where is the love ?
"O que está errado com o mundo mamãe?
As pessoas vivendo como se não tivessem mães
Acho que o mundo todo viciou-se no drama.
Apenas atraindo coisas que trazem trauma.
Olha só, a gente tenta parar o terrorismo
Mas ainda temos terrorismo vivendo aqui.
Em os EUA, a grande cia.
O sangue e os Crips e os KKK
Mas se você só tem amor pela sua própria raça,
Então só sobra espaço para discriminação.
E quando você discrimina, você só gera ódio.
E quando você odeia, fica mais irado.
Yeah
Loucura é o que você demonstra.
E é exatamente assim que a raiva funciona.
Cara, você tem que deixar o amor seguir
Tomar controle da sua mente, e meditar
Deixe sua alma levitar para o amor...
Pessoas matando, pessoas morrendo.
Crianças feridas e você escuta o choro delas.
Você pratica o que você prega
E daria o outro lado para bater
Pai, pai, pai nos ajude.
Envie alguma luz dos céus.
Por que as pessoas andam me perguntando.
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
O amor, o amor.
Toda vez e a mesma coisa, nenhuma mudança
Os novos dias são estranhos, estará o mundo insano?
Se o amor e paz são tão fortes
Porque as peças do amor não se encaixam
Paises jogam bombas.
Gases químicos enchem os pulmões dos pequenos.
Que vão sofrer pois sua infância morre cedo.
Então pergunte a si mesmo, o amor realmente se foi?
Então eu poderei perguntar pra mim mesmo, o que realmente esta acontecendo de errado?
Nesse mundo que vivemos pessoas guardam mais do que dão.
Tomam decisões erradas, apenas visando seus dividendos.
Sem respeitar um ao outro, negando seu irmão.
Uma guerra que surge, mas a razão é encorberta.
A verdade é mantida em segredo, varrida para debaixo do tapete.
Se você não conhece a verdade, nao pode conhecer o amor.
Onde estará o amor? vamos lá! (eu não sei)
Onde estará a verdade? vamos lá (eu não sei)
Onde estará o amor?
Pessoas matando, pessoas morrendo.
Crianças ferias e você escuta o choro delas.
Você pratica o que você prega
E daria o outro lado para bater
Pai, pai, pai nos ajude.
Envie alguma luz dos céus.
Por que as pessoas andam me perguntando.
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
O amor, o amor.
Eu sinto o peso do mundo nos meus ombros.
Enquanto envelheço, pessoas ficam cada vez mais frias.
Muitos de nós so nos preocupamos com fazer dinheiro.
O egoismo está nos guiando para a direção errada.
Informações erradas mostradas pela media.
Cujo critério é de imagens negativas.
Infestando a mente dos mais jovens mais rápido do que bacteria.
As crianças querem agir assim como elas veem no cinema.
E ai, o que aconteceu com os valores de humanidade?
O que aconteceu com a igualdade?
Ao inves de espalharmos amor estamos espalhando desanimo
Brechas de conhecimento deixando vidas longe de uma unidade.
É por isso que as vezes eu me sinto mal.
É por isso que as vezes eu me sinto pra baixo.
Eu não teria por que ficar me sentindo mal.
Tenho que manter minha esperança viva, até que o amor seja encontrado.
Agora pergunte para você mesmo!
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
Cade o amor?
Pai, pai, pai nos ajude.
Envie alguma luz dos céus.
Por que as pessoas andam me perguntando.
Cade o amor?
Uma guerra"


1º A partir da música, pedirei aos alunos que identifiquem o que há de mitológico e o que há de realidade na letra.
2º A partir da letra da música, irei introduzir a reflexão sobre o conceito 'amor' em confronto com o conceito 'violência'. Esta reflexão visa atender a um dos itens programados para a etapa: 'a invenção do conceito'.

Mitologia e Filosofia IV

Na aula desta semana trabalhei com os alunos a resposta à pergunta feita pela UFMG.

Trecho 1: conhecimento mitológico
Trecho 2: conhecimento filosófico (neste caso a resposta pode ser também conhecimento científico pois, a filosofia de Aristóteles tratada no livro citado refere-se à natureza).

Caracterização do trecho1: O conhecimento mitológico é expresso por uma linguagem que relaciona a natureza e os deuses; ela mistura dois mundos: o mundo onde se vive e o mundo onde se imagina uma explicação para os fenômenos que ocorrem no mundo que se vive; conhece-se uma explicação para os fenômenos que transcende o mundo em que se vive.
Caracterização do trecho 2: o conhecimento filosófico é uma linguagem que expressa um só mundo, o mundo onde se vive; a explicação é coerente, pertinente e imanente. Esta linguagem é também chamada LOGOS (palavra grega). Na linguagem filosófica não aparecem divindades ou qualquer recurso que ultrapasse a natureza (ou realidade)


Exemplos:
1º A Caixa de Pandora e o mito de Adão e Eva para explicar o surgimento da morte.
2º O mitema de Eco para explicar o surgimento do eco.
3º O mitema de Narciso para explicar o surgimento da flor de narciso.

Para pesquisar e conhecer mais sobre Mitologia:

http://www.mundodosfilosofos.com.br/mitologia.htm


http://psicoforum.br.tripod.com/index/artigos/mito1.htm

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Mitologia e Filosofia III

Na segunda semana de aula, abordamos o tema 'Mitologia e Filosofia' de modo diferente, se na primeira semana contamos uma história para despertar o interesse dos alunos, na segunda semana passei no quadro uma questão que caiu no vestibular da ufmg/2001, onde questiona sobre os modos de conhecimento mitológico e filosófico; eis a questão:

UFMG - 2001
QUESTÃO 05
Leia estes trechos:
TRECHO 1
Terra primeiro gerou igual a si mesma
Céu constelado, a fim de cobri-la toda ao redor
e de que fosse aos deuses venturosos sede segura para sempre.
E gerou altas montanhas, belas moradas das deusas
Ninfas que habitam as montanhas frondosas.
E gerou também a infecunda planície impetuosa de ondas,
o Mar, sem desejoso amor.
HESÍODO. Teogonia, vv. 126-132.

TRECHO 2
A água envolve a terra, tal como ao redor daquela encontra-se a esfera de ar e, ao redor desta, a esfera dita de fogo [...] por outro lado, o sol, movendo-se do modo como ele o faz, produz as mudanças da geração e da corrupção e, por causa disto, a água mais leve e mais doce é aspirada todo dia e, uma vez dividida e vaporizada, é transportada para a alta atmosfera; lá, ela é novamente condensada por causa do frio e desce então, mais uma vez, para a terra. E isto, como dissemos anteriormente, a natureza sempre quer produzir deste modo.
ARISTÓTELES. Meteorológica, 354 b23-32.
Os dois trechos caracterizam formas distintas de conhecimento.
1. IDENTIFIQUE o tipo de conhecimento representado em cada um deles.

2. CARACTERIZE os dois tipos de conhecimento identificados.

A partir desta questão, mostramos a diferença de linguagem dos dois textos, da presença no trecho 1 de figuras sobrenaturais, da ausência das mesmas no trecho 2 e o fato do trecho 1 explicar o mundo de modo transcendente e o trecho 2 de modo imanente.

O que é o homem?





"O que é o homem?
'Sabemos todos', responde Edgar Morin, ' que somos animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do gênero homo, da espécie sapiens.' Qual é nossa diferença específica? A política (Aristóteles)? A razão (os estóicos)? O riso (Rabelais)? A liberdade (Rousseau)? O trabalho (Marx)? Ainda assim, isso só vale para a espécie, não para o indivíduo. Biologicamente, um ser humano é um ser nascido de um homem e de uma mulher - mesmo que esta ou aquela patologia o privasse de razão ou de liberdade, impedisse-o de trabalhar, de fazer política ou de rir. Filosoficamente, um ser humano é um ser que tem de tornar-se humano, tanto quanto possa. Há muito o que fazer. Homo sapiens é uma espécie animal; humanidade, uma criação cultural. O que é o homem?
'É um ser de uma afetividade intensa e instável, que sorri, ri, chora, um ser ansioso e angustiado, um ser fruidor, ébrio, extasiado, violento, amante, um ser invadido pelo imaginário, um ser que sabe a morte e não pode acreditar nela, um ser que secreta o mito e a magia, um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses, um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras, um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas, um ser submetido ao erro, à errância, um ser úbrico* que produz desordem. E, como chamamos de loucura a conjunção da ilusão, da desmesura, da instabilidade, da incerteza entre real e imaginário, da confusão entre subjetivo e objetivo, do erro, da desordem, somos obrigados a ver que Homo sapiens é Homo demens."
Morin, Edgar - In 'A Filosofia', de André Comte-Sponville, p. 115 -116.
* úbrico = desmedido

Mitologia e Filosofia II

Dando continuidade a aula da primeira semana:

Uma análise de como funciona: 'meta - aula'
Dentro dos 50 minutos de aula, o possível de ser feito motivando os alunos e, portanto, valorizando esta transposição, mitologia para a filosofia, é fundamental 'observar o que os alunos estão observando'. Esta expressão é bastante problemática pois, pressupõe que se possa saber o que eles estão pensando, mas não é este o caso - temos acesso imediato apenas e exclusivamente à nossa própria intenção quando elaboramos o plano de aula e quando agimos criativamente durante a aula. Agora, quanto as intenções e expectativas dos alunos, a tarefa exigiria pré-cognição, pré-monição e mediunidade, coisas impossíveis. Para remediar isso: pergunta-se aos alunos e eles podem expressar suas intenções e expectativas verbalmente do contrário, não é possível o acesso à interioridade dos alunos. Dissemos isso para não termos a ilusão de que conhecer intenções telepaticamente seja possível, isto é presunção ou vaidade. Portanto, 'observar o que o alunos estão observando', está vinculado à capacidade de observar as expressões faciais, as expressões corporais, as expressões verbais e as expressões escritas. Deste modo, temos uma hierarquia teórica de eventos relacionada às reações dos alunos. Há uma habilidade a mais que deve estar contida na caixa de ferramentas: a capacidade de observar tudo ao mesmo tempo e de vários alunos ao mesmo tempo - quanto menos alunos na sala, mais eficaz é esta ferramenta - e ter a capacidade de interpretar todo este 'material humano' com uma crítica cuidadosa.